Visitação reúne representantes do Legislativo, profissionais ligados à preservação documental, pesquisadores e membros da sociedade. Durante o encontro, a Companhia Industrial Cataguases recebeu uma homenagem pelos seus 90 anos.
foto: Jade Pimenta
A história de uma indústria também é a história das pessoas que passaram por seus corredores, das famílias que encontraram ali oportunidades de trabalho e das transformações que, ao longo do tempo, ajudaram a construir uma cidade. Foi nesse encontro entre memória, reconhecimento e pertencimento que o Memorial Cataguases recebeu, no início de novembro, uma visita especial, reunindo representantes de diferentes setores da sociedade cataguasense.
O espaço, dedicado à preservação da trajetória da Companhia Industrial Cataguases, da família Peixoto e da própria história industrial do município, recebeu representantes da Câmara Municipal, de órgãos públicos, pesquisadores, intelectuais, profissionais e integrantes da comunidade que, de diferentes maneiras, contribuem para preservar e enriquecer esse patrimônio histórico.
A visita também foi marcada por uma homenagem especial. Representantes do Legislativo municipal entregaram ao industrial Marcelo Peixoto uma placa comemorativa pelos 90 anos da Companhia Industrial Cataguases, reconhecendo a importância de uma trajetória que atravessa gerações e mantém uma relação profunda com o desenvolvimento econômico, social e cultural da cidade.
Estiveram presentes os vereadores Geovane Groppo, Vinicius da Taquara, presidente da Câmara Municipal, e Cristina dos Santos. Para a vereadora Cristina, a experiência teve um significado particularmente emocionante. Ao percorrer o Memorial, ela reencontrou parte de sua própria história: seu primeiro emprego foi na Companhia Industrial Cataguases, onde ingressou como Menor Aprendiz e permaneceu por 13 anos.
A lembrança trouxe à visita uma dimensão que ultrapassa documentos e registros históricos. Para muitos cataguasenses, a Companhia representa também experiências de vida, aprendizado profissional, amizades e histórias familiares. É uma memória que não está apenas nos objetos expostos, mas nas lembranças de quem viveu o cotidiano da indústria.
Também participaram Sandra Ferreira e Anderson Fuscão, profissionais ligados ao arquivo de documentação histórica e artística de Cataguases, além de pesquisadores e outros colaboradores da preservação da memória local. A presença dessas pessoas reforça a importância do diálogo entre instituições, profissionais da pesquisa e comunidade na construção de um acervo cada vez mais rico e representativo.
Uma história que se entrelaça à de Cataguases
Organizado em módulos distintos, o Memorial permite que os visitantes acompanhem diferentes momentos da trajetória industrial e compreendam como o desenvolvimento da atividade têxtil esteve relacionado às transformações vividas por Cataguases.
A história da Companhia Industrial Cataguases, fundada em 1936 por José Inácio Peixoto e seus sócios, tem raízes ainda mais antigas. A presença da família Peixoto na atividade têxtil remonta ao início do século XX, com a atuação de Manuel Inácio Peixoto, a partir de 1911.
Esse percurso, por sua vez, integra uma história ainda mais ampla. A primeira fábrica de tecidos de Cataguases, a Companhia de Fiação e Tecidos de Cataguases, foi instalada em 1905 e inaugurada em 1906. A partir daí, a atividade têxtil ganhou força e contribuiu decisivamente para a formação de um importante polo industrial na Zona da Mata mineira.
Em escala mundial, a indústria têxtil também ocupa um lugar fundamental na história da industrialização. A mecanização da fiação e da tecelagem, especialmente a partir da Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra no século XVIII, transformou os processos produtivos, as relações de trabalho e a organização das cidades. No Brasil, o setor também teve papel pioneiro na formação da indústria nacional.
Em Cataguases, essa história ganhou características próprias. A indústria têxtil não apenas gerou empregos e movimentou a economia, mas também participou da transformação urbana e social do município. Sua influência alcançou diferentes dimensões da vida cultural, em uma cidade que se tornaria reconhecida nacionalmente por seu patrimônio arquitetônico e artístico modernista.
É nesse contexto que o Memorial ganha ainda mais relevância: ao apresentar a história de uma empresa, ajuda também a compreender parte importante da formação de Cataguases.

Objetos que contam histórias e revelam descobertas
Durante o percurso, os visitantes puderam conhecer fotografias, documentos, máquinas e equipamentos antigos relacionados à atividade têxtil, além de peças que revelam aspectos da evolução tecnológica e do cotidiano industrial.
A condução da visita ficou a cargo de duas funcionárias do setor de Treinamento da Companhia Industrial Cataguases. A participação das jovens profissionais acrescentou um significado especial à experiência. Conhecedoras da realidade da indústria e de seus processos, elas apresentaram o espaço a partir de uma perspectiva que aproxima o conhecimento técnico da experiência cotidiana de quem faz parte da empresa.
Outro destaque foi a presença de uma verdadeira raridade documental relacionada à história cultural da cidade: o livro de registros das contribuições populares para a construção do Monumento a José Inácio Peixoto, inaugurado em 1958.
O documento reúne assinaturas e valores doados por operários, comerciantes e outros integrantes da sociedade cataguasense da época. Sua exposição ajuda a esclarecer uma questão que durante muito tempo despertou curiosidade: a participação popular no financiamento do monumento.
Mais do que uma peça documental, o livro revela o envolvimento de diferentes segmentos da sociedade em uma iniciativa que marcou a paisagem e a memória da cidade. É um registro precioso da relação entre a comunidade e sua história.

Um Memorial em constante construção
Ao agradecer a homenagem recebida e a presença dos visitantes, Marcelo Peixoto demonstrou satisfação ao perceber o interesse e o envolvimento das pessoas com o espaço. Destacou, especialmente, que muitos dos presentes trabalharam na Companhia ou possuem familiares que fizeram parte de sua trajetória.
A manifestação reforça uma das características mais significativas do Memorial: a compreensão de que essa história não pertence somente à empresa ou à família que esteve à frente de sua administração. Ela também pertence aos trabalhadores, às famílias e à comunidade que participaram de sua construção ao longo de décadas.
Marcelo ressaltou ainda que o Memorial permanecerá em constante evolução, recebendo novas contribuições e incorporando informações que possam ampliar o conhecimento sobre essa trajetória.
Nesse sentido, as doações de fotografias, documentos, relatos e outros registros históricos representam uma colaboração fundamental. Cada contribuição pode ajudar a recuperar episódios, identificar personagens e preservar lembranças que, de outra maneira, poderiam se perder com o passar do tempo.
Novas visitas deverão ser agendadas, ampliando as oportunidades para que mais pessoas conheçam o espaço e reconheçam nele um pouco de suas próprias histórias.
A visita deixou uma mensagem importante: preservar a memória de uma indústria é também preservar a memória de uma comunidade. Em Cataguases, onde tantas gerações tiveram suas vidas ligadas à atividade têxtil, essa relação se manifesta de maneira particularmente afetiva.
Entre máquinas que testemunharam outros tempos, fotografias que devolvem rostos ao passado e documentos que revelam a participação da sociedade na construção de sua história, o Memorial Cataguases se apresenta como um espaço de conhecimento, reconhecimento e pertencimento.
Afinal, a história da Companhia Industrial Cataguases também é a história de muitas famílias cataguasenses. E é justamente essa ligação, construída ao longo de gerações, que torna tão significativa a preservação desse patrimônio.
