Glória de Cataguases: memória, natureza e saberes que apontam novos caminhos para o turismo rural

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A primeira visita do Projeto Katavento a Glória de Cataguases revelou uma comunidade que guarda histórias, saberes, paisagens e iniciativas que podem contribuir para a construção de novos caminhos para o turismo cultural e rural do município.
Realizado em 8 de setembro, o encontro reuniu representantes do Instituto Francisca de Souza Peixoto (Instituto Chica), da Secretaria de Cultura e Turismo de Cataguases e moradores do distrito. A conversa aconteceu na antiga estação ferroviária, hoje utilizada como posto de saúde, e começou justamente por uma questão apontada pela comunidade: a falta de espaços adequados para reuniões e atividades coletivas.
Entre as primeiras informações compartilhadas pelos moradores esteve a feira realizada aos domingos na praça do distrito. Com venda principalmente de alimentos, a iniciativa recebe também ciclistas que costumam incluir Glória de Cataguases em seus roteiros. O pastel aparece como um dos destaques da feira.


A natureza é outro elemento importante nas narrativas dos moradores. A cachoeira foi apontada como uma das principais atrações do distrito, especialmente procurada por banhistas durante o verão. Também foram mencionadas trilhas e outras pequenas cachoeiras existentes nas proximidades das antigas fazendas do Rochedo e do Glória.
Essas propriedades também despertam interesse pelo patrimônio histórico. Segundo os moradores, os antigos casarões ainda preservam móveis e elementos de decoração de outros períodos, além de vestígios relacionados ao período escravista brasileiro. O acesso, que anteriormente ocorria mediante autorização, tornou-se mais difícil diante das mudanças na composição das famílias proprietárias e do fato de muitos herdeiros já não residirem em Cataguases. As informações levantadas durante a visita indicam a necessidade de aprofundar a pesquisa histórica e patrimonial sobre esses lugares antes de qualquer proposta de visitação.


Glória também conserva saberes e práticas ligados à produção rural e ao artesanato. Foram mencionadas a produção de queijos, hortaliças, rapadura, tapetes de tecido, fuxicos e colchas de retalho, além de pães, roscas e doces. Há ainda pequenas chácaras destinadas ao aluguel por temporada.


A conversa revelou, entretanto, que algumas iniciativas de formação e geração de renda não tiveram continuidade. Os moradores lembraram cursos de Turismo de Experiência e de Ecoturismo realizados em anos anteriores, além de uma iniciativa relacionada ao selo Café Rural. Também foi relatada a existência de equipamentos deixados após essas ações. Para a comunidade, a retomada de cursos e atividades de formação, envolvendo diferentes faixas etárias, pode contribuir para fortalecer as possibilidades econômicas e culturais do distrito.
Outro tema recorrente foi a necessidade de melhorar a infraestrutura. Os moradores destacaram a falta de sinalização nas estradas, a dificuldade de transporte e a escassez de mão de obra, especialmente para atividades relacionadas à produção rural. A região da Serra da Neblina, uma das áreas mais elevadas do município e local apontado como nascente de um dos rios da região, também apareceu na conversa como território de interesse cultural e turístico. Abaixo da serra, na região conhecida como Santa Maria, foi lembrada ainda uma antiga chácara produtora de flores, cuja atividade teria sido interrompida pela falta de trabalhadores.


A memória das festas e das tradições também merece atenção. Os moradores citaram a festa de São Sebastião, realizada na região da Serra da Neblina, como uma manifestação popular organizada pela própria comunidade. Também lembraram a antiga Festa do Carro de Boi, que deixou de existir, revelando como parte do patrimônio imaterial do distrito pode estar desaparecendo sem que sua história seja registrada.
Entre as histórias pessoais que surgiram durante a conversa, uma chamou particularmente a atenção: a trajetória de dona Josefina, moradora em frente à antiga estação ferroviária. Durante muitos anos, ela trabalhou como telefonista, nos Correios e como professora local. Também costurava vestidos e roupas de noivas. Sua trajetória reúne diferentes dimensões da vida cotidiana de Glória e representa um exemplo da memória humana que o Projeto Katavento pretende encontrar e registrar.

A visita mostrou que mapear a zona rural não significa apenas localizar cachoeiras, trilhas, fazendas ou espaços de visitação. Significa também reconhecer pessoas, modos de fazer, festas, sabores, histórias de trabalho e relações construídas ao longo do tempo.
Em Glória de Cataguases, o Katavento encontrou uma comunidade que conhece seu território e aponta possibilidades. O desafio agora é transformar essas memórias e potencialidades em conhecimento, valorização cultural e oportunidades de desenvolvimento sustentável, sempre com a participação dos próprios moradores