Entre memórias, quitandas e saberes: Katavento inicia mapeamento cultural da zona rural de Cataguases por Cataguarino

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Primeira visita de campo do projeto revelou histórias, tradições, produção rural, artesanato e desafios vividos pelas comunidades do distrito

Há lugares onde a cultura não está guardada em vitrines. Ela acorda antes do sol, acende o forno, passa pelo café recém-torrado, aparece nas mãos que moldam a madeira, atravessa uma roda de conversa e, às vezes, bate no chão ao ritmo dos bastões do Mineiro-Pau.

Foi assim que começou, em 1º de setembro, a primeira visita de campo do Projeto Katavento, iniciativa da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Cataguases que pretende mapear cultural e turisticamente a zona rural do município. O Instituto Francisca de Souza Peixoto participa do projeto como parceiro cultural e metodológico, contribuindo com pesquisa patrimonial, registro de memórias e condução de rodas de conversa.

A equipe formada pelo jornalista e gestor cultural do Instituto Chica, Juliano Carvalho Ferreira, e pela coordenadora de Turismo da Secretaria, Lívia de Carvalho, percorreu propriedades e conversou com moradores e produtores de Cataguarino. A mediação local ficou por conta de Seleste Rodrigues, professora aposentada e moradora do distrito.

 

E foi pelas memórias de Seleste que uma das primeiras histórias apareceu.

Filha de Zico Justino, mestre popular ligado à tradição do Mineiro-Pau, Seleste cresceu acompanhando o pai e as irmãs nas manifestações culturais em que ele participava. Hoje, uma nova geração começa a se aproximar da tradição: Alice, de 12 anos, neta de Cida, já participa de um grupo de Mineiro-Pau.

É um pequeno gesto, mas de enorme significado para quem pesquisa patrimônio cultural: uma tradição que poderia viver apenas na lembrança de seus antigos mestres encontra espaço para continuar sendo aprendida.

Da cozinha rural para a alimentação escolar

Na primeira parada, a equipe conheceu o trabalho das Mulheres Rurais de Cataguarino. Recebida por Maria Aparecida da Silva Castro, a Cida, a equipe encontrou uma iniciativa que transforma receitas, conhecimentos e práticas culinárias em fonte de renda para famílias do distrito.

Atualmente, seis mulheres participam do grupo, cada uma representando uma família. Entre os produtos mais procurados estão os pães de cebola, pães de batata e a broa de fubá.

A produção já alcança o mercado institucional da alimentação escolar, inclusive com fornecimento para escolas da rede estadual em Juiz de Fora, segundo relato apresentado durante a visita.

A experiência se relaciona diretamente ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), política pública federal que, entre suas diretrizes, incentiva a compra de alimentos da agricultura familiar. A legislação determina que pelo menos 30% dos recursos federais destinados ao programa sejam aplicados na aquisição desses produtos.

O que parece apenas uma quitanda sobre a mesa, portanto, também conta uma história de agricultura familiar, protagonismo feminino, geração de renda, política pública e valorização da cultura alimentar.

A natureza transformada pelas mãos

Na casa de Seleste e João Raul, outro saber chamou a atenção.

Aposentado, João encontrou no artesanato uma nova maneira de trabalhar. Galhos, troncos, bambus, cipós e pedras encontrados na própria região tornam-se matéria-prima para oratórios, aves, molduras e outros objetos.

Mais do que transformar a madeira, João transforma elementos do território em objetos carregados de identidade.

A atividade ainda será melhor investigada pelo Katavento, especialmente para compreender sua relação com as categorias de artesanato tradicional, artesanato de referência cultural e arte popular.

Uma sanfona, um velocípede e muitos sabores

No Sítio Engenho Velho, Oswaldo Rodrigues Pinto e Marlene Aparecida de Paula Pinto receberam a equipe com histórias e produtos feitos pelas próprias mãos.

Marlene produz biscoitos, doces de compota, licores e colchas de fuxico. Também toca sanfona e participa das Mulheres Rurais. Oswaldo constrói bancos e outros objetos, entre eles um velocípede artesanal.

O próprio nome da propriedade despertaria outra pergunta durante o percurso: outros sítios visitados também eram chamados Engenho Velho. A coincidência pode guardar uma história ligada à divisão e à herança de antigas terras da região — hipótese que deverá ser aprofundada nas próximas etapas da pesquisa.

No Sítio Boa Esperança, de Geralda Miranda de Castro e José Braz Severino de Castro, a equipe encontrou o forno trabalhando.

Uma fornada de broinhas de fubá acabava de sair quando chegaram. Também havia pão de fruta-pão.

A família produz ainda o próprio café, realizando na propriedade etapas como plantio, colheita, secagem, moagem e torrefação. O produto chega a consumidores de Cataguases e Guidoval.

Mas talvez tenha sido uma frase de Geralda que melhor sintetizou a experiência: a vida na roça não é tranquila. É preciso trabalhar duro.

Ela começa sua rotina ainda de madrugada.

A frase ajuda a olhar para o campo sem romantização. A zona rural é lugar de beleza, mas também de trabalho intenso, conhecimento, esforço e resistência.

 

O carro de boi que continua trabalhando

No Sítio da Prata, José Olímpio Martins da Silva, o Juca do Anísio, e Wilma do Carmo Neto da Silva apresentaram outra dimensão dessa permanência.

A família produz doces, mel, biscoitos e outros alimentos, mas também mantém uma atividade que chama atenção: a fabricação artesanal de carros de boi.

O trabalho é liderado pelo filho Leandro, que justamente naquele dia estava no Espírito Santo entregando uma encomenda.

O carro de boi, portanto, não aparece apenas como lembrança de um passado rural. Existe ainda um saber de fabricação, uma demanda e uma circulação comercial.

A visita também revelou desafios. O casal contou que deixou de manter duas hortas porque já não havia disponibilidade de mão de obra para cuidar delas.

É uma questão que o Katavento deverá investigar: o que acontece com as propriedades rurais quando as famílias diminuem e os jovens deixam de permanecer no campo?

Quando produzir não é suficiente

Em diferentes propriedades, uma mesma questão apareceu.

Transporte.

Os produtores relataram dificuldades para levar sua produção até os mercados e apontaram também desafios relacionados às regras de comercialização no Mercado do Produtor.

As situações serão aprofundadas pelo projeto, ouvindo produtores e também os órgãos públicos envolvidos. Afinal, compreender o território significa ouvir diferentes lados de uma mesma questão.

No Laticínio Souza, de Luciano de Souza e Margarett Zullato de Souza, a produção de iogurtes, mussarelas e requeijão também se conecta à alimentação escolar e ao mercado local.

Em outra propriedade, Wilmar Neto dos Reis e Wilma Alves Teixeira dos Reis produzem verduras e leite. O leite segue para um laticínio em Miraí, enquanto as verduras chegam ao Mercado do Produtor de Cataguases.

Já Izabel Elena Souza Giudini mantém a produção de queijos, doces, chouriço e outros alimentos, preservando também uma clientela que, segundo ela, veio do pai.

São histórias diferentes, mas que começam a formar um mesmo desenho.

Um território para ser conhecido

Ao final do dia, já no caminho de volta para Cataguases, a equipe carregava mais do que fotografias.

Carregava nomes, receitas, histórias de família, problemas, possibilidades e perguntas.

O primeiro campo do Katavento mostrou que mapear a zona rural não significa simplesmente localizar propriedades em um mapa.

É preciso descobrir quem são as pessoas, o que sabem fazer, o que aprenderam com seus pais e avós, o que estão ensinando aos filhos e netos, como vivem, como trabalham e quais obstáculos enfrentam.

Também é preciso perguntar como esses saberes podem gerar novas oportunidades sem perder sua identidade.

Em Cataguarino, surgiram possibilidades de experiências de turismo rural envolvendo culinária, produção de alimentos, café, artesanato, natureza e memória. Mas, antes de transformar essas referências em roteiros turísticos, o projeto pretende compreender melhor as comunidades e suas condições.

Afinal, talvez o maior patrimônio encontrado no primeiro dia do Katavento não esteja em um objeto específico.

Ele esteja na capacidade de uma comunidade continuar produzindo cultura enquanto trabalha, cozinha, planta, cria, canta, constrói e conta suas próprias histórias.

E o mapa que começa a ser desenhado pelo projeto talvez seja, antes de tudo, um mapa de pessoas.