Ana Carolina Fialho Abreu: “Foi no Instituto que descobri a potência transformadora do riso

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Professora da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), pesquisadora e  de pós-doutoranda em Direitos Humanos e referência nos estudos sobre comicidade e culturas indígenas, Ana Carolina Fialho Abreu iniciou sua trajetória artística ainda na adolescência, no Instituto Francisca de Souza Peixoto. Entre os 13 e os 18 anos, integrou projetos como o Chicariarte e os Doutores Cura-Cura, experiências que despertaram sua vocação para o teatro, a pesquisa e a docência.

 

Hoje, sua atuação acadêmica ultrapassa as fronteiras do Brasil. Com pesquisas desenvolvidas em países como Peru e México, Carolina investiga o papel da comicidade na educação, na saúde, nos direitos humanos e nas culturas originárias da América Latina. Uma trajetória reconhecida nacionalmente, mas que teve seus primeiros passos em Cataguases.

Nesta entrevista ao Instituto Chica, ela relembra os anos de formação vividos na instituição, fala sobre os aprendizados que marcaram sua vida e explica como aquelas experiências continuam presentes em sua atuação como professora e pesquisadora.

Você costuma falar do Instituto Francisca de Souza Peixoto e do Marcelo com muito carinho. Que lembranças desse período mais marcaram sua formação pessoal e artística?

Olho para trás e vejo um período de formação e de atuação muito intenso. Cheguei ao Instituto com 13 anos e permaneci até os 18. Quando entrei na universidade, muitas pessoas não acreditavam na bagagem que eu trazia. Eu tinha fotografias, reportagens e muitas experiências para compartilhar.

Foi no Instituto que conheci o teatro, participei do Chicariarte e assisti aos primeiros espetáculos da minha vida. Também foi ali que comecei a compreender a importância da cultura, da educação e do compromisso social. Gosto de dizer que o Marcelo foi um jardineiro que adubou sonhos como o meu. Hoje, também me considero uma jardineira: existe em mim a arte de plantar e de colher.

Outra experiência inesquecível foram os Doutores Cura-Cura. Atendíamos crianças, adultos e idosos nos hospitais, levando a linguagem do palhaço para pessoas em diferentes momentos da vida. Foi só quando deixei Cataguases que compreendi a dimensão daquele trabalho e a importância do Instituto na formação de tantas pessoas.

Em que momento você percebeu que o teatro deixaria de ser apenas uma atividade artística para se tornar seu projeto de vida?

Esse momento nasceu justamente das experiências vividas no Instituto. O Marcelo e a psicóloga Sandra Maciel incentivavam muito nosso processo de formação. Fizemos cursos em São Paulo sobre palhaçaria hospitalar, estudamos autores importantes e refletimos sobre temas delicados, como o cuidado, a perda e a humanização nos hospitais.

Foi pesquisando a formação dos artistas dos Doutores da Alegria que descobri o curso de Artes Cênicas da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). A partir dali, percebi que queria seguir esse caminho profissionalmente.

Sua pesquisa sobre comicidade e culturas indígenas tornou-se referência na área das Artes Cênicas. Como surgiu esse interesse?

Na universidade percebi que a maior parte das referências sobre comicidade era europeia. Comecei então a me perguntar qual era o papel do riso nas culturas latino-americanas e indígenas.

Durante essa caminhada conheci artistas, pesquisadores e diferentes tradições culturais que ampliaram meu olhar. Em determinado momento compreendi que muitas das perguntas que eu fazia tinham origem nas experiências vividas no Instituto. Foi como reunir todas as peças de um mesmo percurso.

Hoje você desenvolve pesquisas em diferentes países da América Latina. O que mais motiva seu trabalho?

Atualmente realizo um pós-doutorado em Direitos Humanos, com pesquisas desenvolvidas no Peru e no México. Meu interesse é compreender como o riso pode contribuir para a saúde, para a educação e para a transformação social.

Quero investigar de que maneira diferentes culturas utilizam a comicidade como forma de resistência, de cuidado e de fortalecimento das comunidades. No fundo, continuo pesquisando aquilo que comecei a descobrir ainda adolescente, dentro do Instituto.

Que mensagem você deixaria aos jovens que hoje participam dos projetos do Instituto?

Aproveitem cada oportunidade. Muitas vezes não percebemos a dimensão das experiências que estamos vivendo naquele momento. Anos depois, compreendemos que foram justamente elas que abriram caminhos, despertaram sonhos e transformaram nossa maneira de olhar o mundo.

O Instituto foi esse lugar para mim. Um espaço onde descobri a arte, encontrei pessoas que acreditaram no meu potencial e comecei a construir a trajetória que sigo até hoje.