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Francisco Inácio Peixoto em prosa e poesia
Luiz Ruffato

Estas as primeiras linhas do poema que Drummond dedicou ao contemporâneo de lides poéticas e de ousadias modernistas. Mas o clarão que o texto de Francisco Inácio Peixoto certamente faz reverberar ao seu redor ficou por certo ofuscado, mesmo apagado, nestes bem contados quase 90 anos do Modernismo Brasileiro. Se o modernismo mineiro já vem sendo alvo de estudos freqüentes por parte da crítica acadêmica, muito ainda há que se divulgar de suas conquistas e desdobramentos.

Este é, entre outros muitos, o mérito da publicação, que resgata textos de Francisco Inácio Peixoto.

Em Cataguases, cidade mineira da Zona da Mata, em 1927, com subtítulo Revista mensal de Arte e Cultura (com os “s” invertidos, como mandava o ideário futurista da época), aparece a Revista Verde. Nasceu da iniciativa de um grupo de rapazes – Francisco Inácio Peixoto, Guilhermino César, Rosário Fusco, Henrique de Resende, Ascânio Lopes. Como explicar um “surto modernista”, na pequena Cataguases, e ainda surto cronologicamente simultâneo às manifestações dos grandes centros como São Paulo e Rio? Muitas devem ser as causas. O processo de modernização, como em outros centros maiores, aparece ligado à vigorosa burguesia local, com um perfil de mecenas, financiando e estimulando os projetos da nova geração. Anos mais tarde, a cidade abrigaria uma das primeiras obras de Niemeyer, esculturas de Brecheret e painéis de Portinari e Djanira, projetos paisagísticos de Burle Marx na seqüência dos financiamentos de artistas emergentes. Não se pode esquecer que ali, no mesmo período, nascia o cinema moderno de Humberto Mauro.

Neste solo moderno brotam a poesia e ficção de Francisco Inácio Peixoto, que a publicação deste livro precioso vem trazer novamente à luz para estudiosos e amantes da literatura brasileira. 54 anos de produção literária, exígua, mas robusta, sobretudo na expressão e no resgate das vozes do cotidiano desses muitos Brasis que se abrigam sob um único nome.

Povoam a ficção do escritor as falas de modestos moradores de pensão, de médicos e dentistas do interior, de kardecistas, de crianças infelizes, de moças casadoiras e prostitutas. Toda uma “arraia miúda” que encontra expressão e espaços enunciativos no seu texto literário. Espectro amplo de registro de vozes que vai do catecismo repetido às trovinhas carnavalescas, da expressão de dores do corpo e da alma, às gírias e falas ao telefone. Em Passaporte proibido, o olhar do intelectual igualmente registra vozes distantes, recolhidas na viagem ao Leste Europeu, às vezes, dissidentes sem o saberem, também elas “vozes dos menores”, filtradas pelo timbre compassivo do narrador. Mesmo um currículo escolar de uma cidade tcheca não escapa à curiosidade do nosso escritor, que dele faz o registro, assim como o faz dos pontos turísticos visitados e do autoritarismo dos poderosos, mas também da boa impressão causada pela constatação do êxito de políticas sociais. Muito se poderia dizer de sua ágil poesia, humorística e histórica, local de recolha de trovas populares e da vida sofrida da gente humilde.

Enfim, aclame-se a iniciativa da publicação que reaviva a memória de tão significativa produção.

Maria Zilda Ferreira Cury

 
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